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terça-feira, 24 de junho de 2014

Filme do Dia: Morte em Veneza (1971), Luchino Visconti


Morte em Veneza (Death in Venice, Itália/França, 1971). Direção: Luchino Visconti. Rot. Adaptado: Nicola Badalucco & Luchino Visconti, baseado no romance de Thomas Mann. Fotografia: Pasqualino De Santis. Montagem: Ruggero Mastroianni. Dir. de arte: Ferdinando Scarfiotti. Figurinos: Piero Tosi. Com: Dirk Bogarde, Romolo Valli, Mark Burns, Nora Ricci, Bjorn Andressen, Marisa Berenson, Carole André, Silvana Mangano, Leslie French, Franco Fabrizi.
      Gustav von Aschenbach (Bogarde), famoso maestro e compositor, chega em Veneza e hospeda-se no tradicional Hotel des Bains. Lá acaba interessando-se por um jovem adolescente polônes, Tadzio (Andressen), que encontra-se com sua mãe (Mangano) e irmãs. Seguindo os seus passos, Aschenbach deposita nesse amor platônico a possibilidade de seu renascimento espiritual e musical, já que volta a compor, após o fracasso de sua última apresentação, quando foi vaiado pelo teatro em peso. E escreve agora com paixão, deixando de lado o racionalismo excessivo que acabou gerando a reação contrária do público. Em meio aos encontros casuais e nem tanto casuais com Tadzio, que sempre corresponde ao seu olhar, Aschenbach relembra as discussões estéticas com o também compositor Alfred (Burns), a vida idílica com a esposa (Berenson) e a filha, o falecimento da última e o encontro frustrado com uma prostituta, Esmeralda (André). Quando sua viagem para Munique é frustrada porque sua bagagem partiu para Como, Aschenbach sente uma satisfação quase infantil de permanecer mais algum tempo em Veneza, perto do objeto de seu amor. Porém, a alegria radiante que sente ao retornar ao hotel, se dissipa rapidamente quando aumentam os boatos de que uma peste se espalha pelas ruas de Veneza, que estão sendo desinfetadas. Negada por todas as autoridades, inclusive o gerente do hotel (Valli), a notícia é confirmada por um escrupuloso agente de viagens (French), que aconselha Auschenbach de abandonar Veneza o quanto antes. Ao chegar no hotel, toma notícia que a família de Tadzio parte após o almoço. Tempo suficiente para que ele possua uma idílica visão do objeto de seu amor, ao mesmo tempo em que morre na praia semi-deserta.
Abertamente inspirada na biografia de Gustav Mahler, a obra de Mann, no entanto, transforma o protagonista em escritor. Visconti não só faz com que ele torne-se compositor, como ainda utiliza-se da terceira e quinta sinfonias do mesmo. A densa discussão sobre estética presente no livro acabe se tornando esquemática e superficial tal e qual apresentada, nos flashbacks das discussões entre Auschenbach e Alfred. O mesmo não pode-se dizer da difícil (e talvez a mais bem realizada em toda a história do cinema) transposição do amor platônico para às telas, que ampara-se sobretudo na beleza plástica do filme (com especial destaque para a seqüência inicial da chegada em Veneza e o momento que antecede a morte do compositor, em que o clímax da sensibilidade estética identifica-se com a morte) e na utilização maciça das composições de Mahler (sobretudo a quinta sinfonia, que acaba tornando-se também uma das protagonistas do filme). Como outros filmes do cineasta, esse também é um  retrato da perda da dignidade humana: Auschenbach transformando-se num ser tão patético como aquele que encontrara em sua chegada à Veneza, condição a qual não lhe resta mais que um riso/choro desesperado; todo o sonho de juventude, enquanto sinônimo de beleza e vida, desfaz-se como a maquiagem sobre o sol num esgar de morte com a cólera. O nome do vapor que o traz para a cidade possui o mesmo nome da prostituta com que se encontrara na juventude, como que explicitando que ambos os encontros serão frustrados. Entre as fraquezas do filme encontra-se a utilização excessiva do zoom, recurso em moda à época, e que apenas enfraquece a beleza visual dos habituais grandes planos com que o cineasta trabalha e o fato de ser falado em inglês. Como todos os filmes do cineasta, possui diversas versões, como as de 130 e 135 minutos. Ficam de fora dessa versão, com relação a uma lançada em vídeo, por exemplo, cenas de monólogo interior de Auschenbach e a especulação sobre o nome de Tadzio. Alfa Filme/Warner. 125 minutos.


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