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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Filme do Dia: Guerra ao Terror (2008), Kathryn Bigelow




Guerra ao Terror (The Hurt Locker, EUA, 2008). Direção: Kathryn Bigelow. Rot. Original: Marc Boal. Fotografia: Barry Ackroyd. Música: Marco Beltrami & Marco Sanders. Montagem: Chris Innis & Bob Murawski. Dir. de arte: Karl Júlíusson & David Bryan. Cenografia: Amin Charif El Masri. Figurinos: George L. Little & Vicky Mulholland. Com: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Guy Pearce, Ralph Fiennes, David Morse, Evangeline Lilly, Christian Camargo.

Iraque, 2004. O especialista em desarmar bombas William James (Renner) passa a trabalhar com a equipe do sargento Sanborn (Mackie), que acabara de perder seu especialista numa detonação. A relação se torna tensa, já que James não escuta as ordens de Sanborn, procurando fazer as coisas a seu modo. Porém, uma confiança crescente passa a surgir entre dos dois, a partir dos muitos momentos de risco de vida e perda de amigos que vivenciam em suas missões. Bem próximo a eles se encontra o especialista Eldridge (Geraghty), mais imediatamente impactado e sensível ao terror que os rodeia. Tendo desarmado mais de 800 bombas, nas situações mais insólitas – uma delas extraída de dentro do cadáver de uma criança que acreditava ter sido uma das crianças que brincava com ele e lhe vendia DVDs – James retorna para a esposa e filha, mas acaba não conseguindo se manter muito longe do cenário da guerra, quando ouve notícias de novas explosões e mortos.

A epígrafe do filme, que equivocadamente pode até ser lida inicialmente como uma mensagem idealista contra a guerra, rapidamente se adéqua ao próprio perfil de seu protagonista. O que se destaca da frase é que a guerra é uma droga. Ela torna James literalmente dependente da adrenalina máxima que o leva a situações constantes de risco de morte. Certamente é algo positivo que a epigrafe possa ser rapidamente decifrada em seu real teor, pois o filme certamente se tornaria bastante hipócrita se esta fosse uma mensagem anti-bélica, no mesmo estilo dos filmes que, desde Griffith, conclamam contra os vícios da humanidade apenas como pretexto para apresentar tais vícios. No caso do filme de Bigelow, esta opção se demonstra perigosamente restrita a tentar incorporar o espectador na mesma adrenalina viciante. O filme atualiza, em termos do realismo das imagens, a tensão do campo de batalha. Nos seus primeiros trinta minutos procura-se uma perspectiva quase “documental” e anódina do que se retrata, relativamente distanciada e “de fora”, antes que as convenções que fecham o cerco na figura de seus personagens mais próximos, os traguem rumo a convenções bem mais comuns. Tal perspectiva é auxiliada pela ausência de nomes famosos, à exceção de uma pequena ponta de Fiennes.  Em termos cosméticos, até apela para  uma referência auto-consciente a valores que sempre se encontraram subliminares em filmes do gênero e no cinema americano em geral, como a amizade entre “camaradas”, satirizada aqui de modo grotesco na simulação de sexo entre Sanborn e James, empreendida pelo último. Mas, no cômputo final, apenas reafirma as convenções mais arcaicas possíveis do filme de guerra. Renner, uma versão mais jovem de Russel Crowe e igualmente máscula, encarna o homem acima das convenções, regido apenas pelo seu instinto, que quase nunca demonstra ser equivocado – quando este falha, como no caso do garoto por quem se afeiçoou, ele prefere simplesmente sepultar as tensões trazidas pelo retorno do que se encontra recalcado - na melhor tradição de John Wayne. Sanborn é o seu contraponto sensato e por demais adestrado dentro das convenções para ser efetivamente interessante, em termos dramáticos, além de ser negro. Juntos formariam o ser ideal. Para que as tintas não fiquem demasiado carregadas em seu protagonista, tornando uma versão apenas mais complexa e matizada de um Rambo, quem aponta a arma e mata os inimigos é Sanborn, sendo a tarefa primordial de James mais sutil e ardilosa, evitar as mortes provocadas pelas bombas. Ele vai até o limite do possível, arriscando a própria vida para salvar a alheia, como é literalmente o caso do homem-bomba desesperado que não consegue se desvencilhar de sua carga. Tampouco em termos da representação dos iraquianos o filme avança, pois eles são sempre observados com  o mesmo olhar desconfiado ou paternalista de seus necessariamente paranóicos militares. Enfim, torna-se pouco mais que pano de fundo para quem realmente importa. É muito pouco, mesmo quando se compara com outras produções de destaque que lidam com questões contemporâneas, tais como Babel. Ou, visto sob outra perspectiva, muito barulho por nada, ou seja, tudo que há de virtuoso no  filme, em termos técnicos e mesmo dramáticos, reduzindo-se ao voyeurismo das sensações mais imediatas do gozo com o perigo e o risco de morte de seus soldados, como querendo tornar seus espectadores dublês de seu neurótico herói. Voltage Pictures/Grosvernor Park Media/FCEF/First Light Prod./Kingsgate Films para Summit Ent. 131 minutos.

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