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quarta-feira, 12 de abril de 2017

Filme do Dia: Na Boca do Mundo (1978), Antônio Pitanga



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Na Boca do Mundo (Brasil, 1978). Direção: Antônio Pitanga. Rot. Original: Leopoldo Serran, a partir do argumento de Cacá Diegues & Antônio Pitanga. Fotografia: Fernando Duarte. Música: Jorge Ben. Montagem: Sérgio Sanz. Dir. de arte e Figurinos: Régis Monteiro. Com: Antônio Pitanga, Norma Bengell, Sibele Rubia, Angelito Mello, Milton Gonçalves, Telma Reston, Maurício Gonçalves.

Antônio (Pitanga) é um frentista que se envolve com a grã-fina Clarisse (Bengell), em crise depressiva. O envolvimento dos dois desperta os ciúmes da noiva virgem de Antônio, Terezinha (Rubia), que decide, ao final de contas, que ele deve se aproveitar do dinheiro de Clarisse para que consigam concretizar o sonho de sair do lugarejo no qual vivem e partir para o Rio de Janeiro. Antônio se engaja no plano que prevê, inclusive, que ele a engravide. Tudo começa a se complicar quando Antônio, bêbado, descobre que se tornara motivo para que Clarisse voltasse a se interessar pela vida e revela toda a verdade. Clarisse não o perdoa e, quando voltam a se encontrar, de modo sereno o envenena, e ateia fogo na casa, dando a impressão de ser mais um dos incêndios acidentais típicos na comunidade provocados pela mescla entre álcool, lampião e habitações de palha. Na sua partida da cidade, oferece carona para que Terezinha consiga satisfazer seu sonho de conhecer o Rio.

Tomando-se sua primeira metade como critério, deve-se ressaltar a puerilidade do argumento, seu desenvolvimento, assim como da técnica são mais que flagrantes. Para não falar da própria e canhestra interpretação dos atores, com destaque especial para a interpretação abaixo de qualquer critério de Sibele Rubia. Tateando em termos de estruturação visual de uma narrativa cinematográfica, Pitanga, ator-fetiche do Cinema Novo e de um cinema que tematize a questão racial, em sua única incursão como realizador, chega a um nível de precariedade no qual nem mesmo a continuidade consegue de algum modo maquiar  a falta completa de balanceamento da interpretação do elenco quanto aos ângulos inusitados de um plano com relação ao que lhe antecede, acabando por transformar mesmo os planos que seguem uma determinada ação dos personagens, como evidente testemunho de terem sido filmados em momentos distintos. O tom “declamatório” com que os atores se dirigem uns aos outros e a péssima utilização sem o menor critério da trilha de canções da MPB complementam o quadro. Bengell, vivenciando uma personagem rica e em “crise existencial” é a própria imagem do clichê. Dito isso, o mais surpreendente é que o interesse pelo desenrolar da trama consiga não apenas relativamente se sustentar, mesmo que sobre fundamentos tão precários, como se descortina, na segunda metade do filme, uma proposta que não exatamente desconstrói, mas provoca constantes torsões na idéia que havia sido aclimatada em sua primeira parte, e tem-se, no conjunto, um filme para além de instigante. Até mesmo no âmbito da imagem chega a apresentar belas composições, como a de Bengell próxima da câmera com Pitanga ao fundo numa praia. No plano ideológico, sua critica da dominação do negro que sugeria ser demasiado explícita para se constituir como verdadeiramente alegórica, na figura do negro objeto do desejo de uma mulher branca que o chama repetidamente de “bom selvagem”, sofre uma primeira ruptura, quando o “bom selvagem” se revela, na verdade, um mau caráter e aproveitador. O que parecia se constituir então como um típico filme que desconstrói às expectativas habituais de paternalismo da elite e apresenta a pujança do oprimido diante de seu pretenso opressor, bem típica do período, sofre uma nova ruptura ao final, quando do assassinato de Antônio, algo que rearticulando a primeira concepção. Sua anemia em termos de alegoria sugerida em sua primeira metade se revela, ao final das contas, duplamente enganosa, seja por conta das reviravoltas acima citadas, como igualmente por momentos mais sutis em que se apresenta uma reflexão sobre as diferenças entre os dois mundos posta, como na seqüência em que Clarisse pretende dançar ao som da última moda, um hit da disco music brasileira com as Frenéticas, e Antônio afirma que só sabe dançar colado, reafirmando a figura de um mundo de convenções ainda menos individualistas e liberais burguesas. Talvez não seja exatamente um pecado o filme atirar em várias frentes ao mesmo tempo, no plano ideológico, apresentando um final que acena, inclusive, para uma possibilidade de leitura feminista e certamente não o é as suas excessivas reviravoltas, mas próximas do melodrama ou do filme alegórico do que propriamente de uma leitura realista. Curiosamente, mesmo que o filme esteja longe de vitimizar nenhum dos envolvidos, os apresentando enquanto plenamente humanos em suas alternâncias de poder, não apenas o domínio de Antônio sobre Clarisse é bem menor, em termos de tempo quanto a reação de cada um a adversidade imposta pelo outro é diametralmente oposta – Antônio se apieda de Clarisse no momento de maior tensão, enquanto essa o mata – quase que implicitamente concordando em algum grau com a pretensa docilidade de Antônio, docilidade essa que, em última instância, lhe provocará sua própria morte. O conjunto do filme parece dever menos a Pitanga, por  conta do aludido, do que ao engenhoso roteiro, que consegue, inclusive, se centrar muito mais no momento em que as ações transcorrem, do que em tentar criar uma moldura que torne compreensível os personagens a partir de seus passados. Essa “sonegação” ou tênue informação sobre o passado dos personagens igualmente faz com que o espectador se veja a todo momento tendo que rever suas hipóteses temporárias sobre o filme. Embrafilme/Lente Filmes para Embrafilme. 100 minutos.

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