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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Filme do Dia: Os Respigadores e a Respigadora (2000), Agnès Varda



Os Respigadores e a Respigadora (Les Glaneurs et la Glaneuse, França, 2000). Direção e Rot. Original: Agnès Varda. Fotografia: Didier Doussin, Stéphane Krausz, Didier Rouget, Pascal Sautelet & Agnès Varda. Música: Joanna Bruzdowicz & Isabelle Olivier. Montagem: Laurent Pineau & Agnès Varda.

Nesse documentário Varda tem como motivo inicial o interesse que lhe despertou os apanhadores de frutos e cereais abandonados pelos agricultores (os respigadores que faz menção o título) em quadros. A partir dessa perspectiva pictórica Varda acaba embarcando numa viagem ao campo onde encontra não apenas memórias dos mais velhos, todos respigadores quando jovens. Varda vai adiante e investiga pessoas que fazem isso nos dias de hoje não apenas com relação aos viveiros de ostras como, no domínio da cidade, revirando o lixo para encontrar restos aproveitáveis de comida. Dois pontos despertam a atenção positivamente em seu documentário. Ela não teme a dispersão ou talvez melhor dizendo o deslize para outras coisas interessantes que vai descobrindo de seus entrevistados, seja um relato sobre o momento do primeiro encontro de um casal como evocado por ela e esquecido por ele ou ainda o encontro com o descendente de um dos precursores da fotografia em movimento, o criador do fuzil fotográfico Marey e a fazenda onde ainda hoje existe o local que serviu de ambiente para suas experiências.  Ou ainda um senhor que usa restos de tralhas, sobretudo bonecas velha para construir verdadeiros totens que sua esposa não chega a considerar de todo como arte. É claro que tudo isso pareceria um tanto bobo e desarticulado senão fosse a moldura mais ampla do próprio documentário uma incursão pessoal e afetiva da própria Varda, que em vários momentos faz menção a si própria, ao processo de envelhecimento registrado em sua própria pele e, no momento visualmente mais inspirado do filme, tenta “capturar” os caminhões que atravessam a rodovia com a própria mão enquanto a outra é utilizada para filmar a cena em questão. Poderia bem servir como metáfora do próprio filme, já que através de um recurso visual simples, tendo em conta a ilusão proporcionada pela distância dos dois objetos filmados (mão e veículos), no qual a presença de espírito e o afeto parace se estender a todos os filmados, sejam os miseráveis que vivem completamente à margem da sociedade como o homem de meia-idade que afirma que há tempos não vê sua família, seja o grupo de jovens que entrou em confronto com a justiça e o comércio local ou ainda as crianças respigadoras, trazendo uma tocante dimensão humana um tanto esquecida pelo documentário contemporâneo. A certo momento, Varda não deixa de expor a precariedade de sua própria casa, com goteiras e infiltrações que ela brinca fazendo comparações com estilos artísticos. Cena que parece ser o próprio triunfo da presença de espírito sobre a gradual e inevitável decomposição que representa a vida, nesse sentido bastante condizente com estratégias semelhantes apresentadas pelas sofridas pessoas que filma, mas que nunca se deixam guiar por um discurso vitimizado. Ciné Tamaris. 82 minutos.

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