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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Filme do Dia: Ninfomaníaca (2013), Lars Von Trier



Ninfomaníaca (Nymphomaniac, Dinamarca/Alemanha/França/Bélgica/Reino Unido, 2013). Direção e Rot. Original: Lars Von Trier. Fotografia: Manuel Alberto Claro. Montagem: Morten Hojberg &  Molly Marlene Stansgaard. Dir. de arte: Simone Grau & Alexander Scherer. Cenografia: Thorsten Sabel. Figurinos: Manon Rasmussen. Com: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgaard, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Connie Nielsen, Maja Arsovic.

Numa manhã de inverno, Seligman (Skarsgaard) encontra uma mulher desacordada na rua e pensa em chamar uma ambulância. Ela, Joe (Gainsbourg) repele a ideia e afirma para ele que apenas precisa de um pouco de chá e pão. Ao lá chegar, após insistentes pedidos dele, conta sua história, desde quando criança fazia brincadeiras eróticas no banheiro até seu reencontro com o ex-patrão Jerome (LaBeouf), o único homem por quem se apaixonou na vida, passando por sua relação amorosa com o pai (Slater) e por sua ninfomania manifesta em situações as mais diversas, como quando ela (Martin) disputa com uma amiga quem conseguirá fazer sexo com a maior quantidade de homens num trem ou acaba provocando o rompimento de um casamento e a histeria de uma esposa (Thurman).

Como se não bastasse a sua divisão em capítulos, o filme evoca as narrativas literárias erótico-perversas do século XIX, em sua demonstração de exibicionismo agudizado pela capacidade de narrar, que acaba se tornando talvez o elemento igualmente mais atrativo do filme. Consistindo sobretudo numa narração, o filme nunca pretende que a imersão nas histórias contadas faça o espectador esquecer de sua base narrativa, repleta de digressões, idiossincrasias, associações – em sua maior parte com a pesca – e também duvidas sobre a verossimilitude, devidamente situadas numa moldura em que menos importa a verdade propriamente que o prazer delegado ao ouvinte (e, por extensão, espectador). E é justamente esse prazer algo polimorfo da narrativa, que se espraia para as muitas associações pretensamente eruditas e nonsense de Seligman, que acabam ganhando representações visuais também peculiares, onde se investe grandemente em números e palavras expressos na tela, que o filme conquista sua maior força – as digressões remontam, de forma evidentemente mais orgânica, a utilização de uma linguagem de cunho não dramático e mais próximo do científico-documental observado em filmes como Meu Tio na América de Resnais ou Ilha das Flores; assim como na espirituosidade  hilariante do capítulo Sra. H, no qual Uma Thurman dispara uma sucessão de tiradas dignas – e mais inteligentes, diga-de passagem – de Tarantino, sendo a associação imediata quando se sabe que se trata da atriz dos dois volumes (expressão também utilizada aqui no título) de Kill Bill, assim como de Pulp Fiction. Bem mais que no quase obrigatório desejo de transgressão, nunca mais patente que na utilização da música de Bach, e seu Prelúdio em Fá Menor, associado no cinema sobretudo como expressão do sublime (em filmes como Solaris, de Tarkovski) para uma cena de sexo explícito. A ironia explícita, mais escrachada, que se encontra presente aqui em diversos momentos não encobre de todo a mais sutil, como a da figura anêmica e de dândi vitoriano encarnado por Jerome ao final. Paralelos, a partir do uso da ironia, são possíveis com outros filmes do realizador, sobretudo Ondas do Destino, que também incorpora um elevado pathos sonoro-musical, uma personagem ninfomaníaca (mesmo que numa lógica mais tradicionalmente melodramática de auto-sacrifício) e uma proximidade com o mais intensamente profano. Dito isso, o filme parece se ressentir, como quase toda a sua filmografia, do abismo que existe entre a virtuosidade com que dispõe dos elementos estilístico-narrativos cinematográficos e sua pretensa profundidade temática. Nos créditos finais já se antecipa cenas da segunda parte. Zentropa Ent./Heimat Film/Zentropa Int. Köln/Film i Väst/Slot Machine/Caviar Films/Concorde Filmverleih/Artificial Eye/Les Films du Losange para Magnolia Pictures. 122 minutos.

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