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terça-feira, 3 de junho de 2014

Filme do Dia: Madame X (1966), David Lowell Rich





Madame X (EUA, 1966). Direção: David Lowell Rich. Rot. Adaptado: Jean Holloway, a partir da peça de Alexandre Brisson. Fotografia: Russell Metty. Música: Frank Skinner. Montagem: Milton Carruth. Dir. de arte: Alexander Golitzen & George C. Webb. Cenografia: Howard Bristol & John McCarthy Jr. Figurinos: Jean Louis. Com: Lana Turner, John Forsythe, Keir Dullea, Ricardo Montalban, Burguess Meredith, John Van Dreelen, Constance Bennett, Virginia Grey, Warren Stevens, Teddy Quinn.

Holly Parker (Turner), balconista casada com o membro da fina flor da sociedade de Connecticut, Clay Anderson (Forsythe), vive uma vida de casados estável na mansão da ciumenta mãe de Clay, Estelle (Bennett). Criando um pequeno filho, Clay Jr. (Quinn), Holly se ressente, no entanto, das longas ausências do marido e sua atribulada carreira como diplomata que pretende seguir na política. Ela se envolve com o conquistador Phil Benton (Montalban). Quando o marido retorna e ela se descobre apaixonada de fato por ele, vai até a casa de Benton, com intenção de romper a relação, mas na discussão que acabam tendo, Benton cai acidentelmente da escada e morre. Ao chegar em casa, Estelle, que possui espiões cobrindo a relação, a chantageia para que suma da vida do filho. É planejado um suposto afogamento de Holly, sem que o corpo apareça, enquanto Estelle providenciou para que ela vá morar na Suiça. Lá, deprimida e sem forças para continuar vivendo, ela é acolhida pelo rico músico Christian Torben (Van Dreelen). Quando a pressão para casamento se torna mais forte, ela simplesmente abanadona sua casa e parte para o México, após ter sido assaltada por um homem que conhecera em um bar e levara para sua casa. No México, conhece o oportunista Dan Sullivan (Meredith), que sabendo de sua trajetória passada, revelada em meio ao alcoolismo crescente, chantagei-a após conseguir convencê-la a viajar para Nova York com ele. Ela o mata e é defendida no júri por ninguém menos que seu filho, Clay (Dullea), iniciando como advogado, enquanto o marido, atualmente governador do estado, e a sogra acompanham o julgamento. Tendo-os reconhecido ela prefere não se manifestar durante o julgamento para não prejudicar o filho e morre pouco antes da sentença vir a ser deferida.

O que de longe mais chama a atenção, para além evidentemente de ter sido fotografado e ambientado de forma muito similar aos melodramas clássicos de Douglas Sirk (nenhuma coincidência, já que se trata da mesma equipe de produção sob a batuta do mesmo produtor, Ross Hunter), nesse filme é o quanto a aparente liberalidade com que é retradada gradualmente a figura de Holly, de alguma forma antecipadora da protagonista de À Procura de Mr. Goodbar (1979), é ainda mais marcadamente conservadora. E o clímax da hipocrisia, com ares de perversão ao espectador consciente de tudo, encontra-se no seu ambíguo final, em que o pai não conta ao filho sobre o fato de ser a própria mãe que acabou de ver morrer. Com a conveniente morte de Parker, absolve-se a família de ter seus problemas privados virem à público. O melodrama rasgado aqui desenvolvido, que não se escusa de fazer uso de artíficios dignos dos tempos de Griffith ou do brasileiro A Filha do Advogado, ou seja, quando o jovem advogado louro surge para defender Holly, de imediato o espectador já sabe se tratar de seu filho.  Ainda assim, caso se queira partilhar de seu pathos, tampouco deixa de apresentar um certo charme, associado ao seu aspecto démodé, quando contemporaneamente a maior parte dos dramas mais relevantes incorporam aspectos sociais explícitos ou diálogos como o que a mãe sopra ao filho próximo antes de partir desse mundo, a respeito dele aproveitar os momentos de amor, uma luz passageira mas marcante na vida. Por menos dotada que seja de talento quando comparada a maior sutileza de outras atrizes presentes nos filmes de Sirk, como Jane Wyman, Turner consegue crescer quando progressivamente aumenta sua decadência e problemas com o álcool. O melodrama da “pecadora arrependida”, que leva seu sacríficio em benefício dos filhos ao túmulo, é evocativo não apenas de alguns filmes clássicos do gênero, como Stella Dallas (1937), como de toda uma cinematografia mexicana. No entanto, e sem muito esforço, uma contra-leitura se torna possível, de uma Holly emancipada, gozando da atenção e do viço que lhe é negado pelo marido, quando se envolve com Phil. E, caso não fosse marcada pela amargura da culpa, de seu envolvimento posterior na Europa. Porém, vitima e passiva quase sempre, após sua única ação de maior afirmação em se envolver com Phil, como é habitual no gênero, Holly parece sempre dependente do auxílio emocional de alguma figura masculina, seja o marido, os amantes ou o filho. Nesse quesito, até mesmo o filme de Vidor dos anos 30, aponta para soluções mais inteligentes e progressistas. Destaque para o vulgar recurso óptico que demarca a passagem das sequências, típico dos seriados de TV e que seria apropriado como comentários irônico por cineastas como Fassbinder ao final da carreira. Universal Pictures/Ross Hunter Prod./Elteee para Universal para Universal Pictures. 100 minutos.


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