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sábado, 31 de maio de 2014

Filme do Dia: Electra Glide in Blue (1973), James William Guercio





Electra Glide in Blue (EUA, 1973). Direção: James William Guercio. Rot. Original: Robert Boris, a partir do argumento dele próprio e de Rupert Hitzig. Fotografia: Conrad L. Hall. Música:  James William Guercio. Montagem: Jim Benson, Gerald B. Greenberg & John F. Link.  Figurinos: Rita Riggs. Com: Robert Blake, Billy Green Bush, Mitch Ryan, Jeannine Riley, Elisha Cook Jr., Royal Dano, Hawk Wolinski, Peter Cetera, Terry Kath.

John Wintergreen (Blake) é um policial rodoviário no Arizona sem muitas perspectivas de crescimento na profissão e acompanhado pelo patrulheiro Zipper (Bush). A situação muda de figura quando o velho Willy afirma que seu melhor amigo se suicidou, tese contra a qual Wintergreen acertadamente se bate, pois logo o médico legista comprovará que o amigo de Willy foi assassinado. Wintergreen é então guindado ao posto de motorista do delegado Harve Pole (Ryan), para quem “incompetência é a pior forma de corrupção.” Porém, seu sonho dura pouco tempo, quando o delegado descobre que sua querida Jolene (Riley) se tornou amante de Wintergreen.
Único filme de Guercio, executivo do mundo da música, essa pequena jóia da breve fase do cinema americano entre o final dos anos 1960 e meados da década seguinte que ficou conhecida, por entre outros nomes, como New Hollywood, foi praticamente esquecido por público e crítica e, de certo modo, ainda assim permanece mais de três décadas após. O filme não parece realmente se encontrar interessado em se aproximar da narrativa criminal e tampouco traz uma visão “de dentro” do personagem como no cinema autoral europeu. Apresenta motivos que lembram o faroeste – as exuberante paisagens do deserto e até mesmo ícones do gênero como o Monument Valley querido dos filmes de Ford, que na verdade fica no estado de Utah – assim como revisita muitos dos elementos do cinema noir e até mesmo de séries televisivas. Porém, faz tudo de uma forma que se torna praticamente irreconhecível e quase como uma evocação existencialista de seu talentoso porém banal protagonista, numa versão plebéia e sanchesca dos burgueses de Antonioni. Mesmo que aqui nada possa ser mais diferente dos filmes do cineasta italiano, sendo tal “perspectiva existencial” construída inteiramente pelo próprio ritmo do filme. Não deixa de ser irônico que a aventura sobre rodas aqui e o ponto de identificação do filme seja justamente com os homens da lei  que eram motivo de ojeriza dos filmes mais afinados com o espírito de contra-cultura da época e que entre seus exercícios de tiro Wintergreen mire justamente na dupla de Sem Destino, que o filme de certa forma ironiza ao deslocar seu eixo para um mundo bem mais trivial, mesquinho e preocupado com a própria sobrevivência. Blake, ator cuja carreira era mais identificada com a TV e antes com um cinema hollywoodiano clássico, vive um “looser” sem precisar explicitá-lo tão fortemente como alguns personagens de Huston, tais como o de Cidade das Ilusões (1972), que rende alguns paralelos que vão além da fotografia, aqui exuberante, do mesmo Conrad Hall. Seu Wintergreen geralmente soa menos trágico do que cômico e infantilizado – sensação acentuada quando se encontra ao lado da figura de autoridade, quase paternal de Pole, como no momento em que timidamente procura informações na comunidade hippie sendo observado por aquele. Destaque para o seu belo e longo travelling final ao som da  não menos bela composição Tell Me, escrita pelo próprio Guercio. Seu final, evidentemente, é igualmente uma referência ao célebre filme de Hopper, sendo que os hippies agora de vítima se transformaram em matadores.  Sua veia irônica, mesmo que menos escrachada, sobretudo na abordagem de seus personagens, deve ter influenciado os Coens de Onde os Fracos Não Tem Vez. Guercio-Hitzig para United Artists. 114 minutos

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