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terça-feira, 13 de maio de 2014

Filme do Dia: Mulheres Diabólicas (1995), Claude Chabrol

Mulheres Diabólicas (La Cérémonie, França/Alemanha,1995). Direção: Claude Chabrol. Rot. Adaptado: Claude Chabrol, baseado no romance de Ruth Rendell, A Judgment in Stone, de Ruth Rendell. Fotografia: Bernard Zitzermann. Música: Matthieu Chabrol. Montagem: Monique Fardoulis. Dir. de arte: Daniel Mercier. Figurinos: Corinne Jorry. Com: Sandrine Bonnaire, Isabelle Huppert, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel, Virginie Ledoyen, Valentin Merlet, Julien Rochefort.
        Sophie (Bonnaire) encontra-se com a sua futura patroa Catherine Lelievre (Bisset) e decide trabalhar com ela. Sophie é bem aceita pela família Lelievre, que mora em uma luxuosa residência, pouco levando em conta seu comportamento ocasionalmente estranho. Sophie torna-se amiga de Jeanne (Huppert), funcionária do correio, que não é benquista pelo patrão de Sophie, George (Cassel), a quem acusa de violar constantemente sua correspondência e ser considerada como suspeita de ter assassinado a própria filha. Tornando-se voluntárias para coletar doações para a Igreja, a amizade entre ambas torna-se ainda mais estreita quando Sophie revela que sabe o caso a respeito de Jeanne e essa, por sua vez, guarda um recorte de jornal em que Sophie é tida como principal suspeita do assassinato do próprio pai. George entra em conflito com Jeanne, quando vai ao correio reclamar da violação de sua correspondência, e escuta que não possui provas contra ela, assim como um relato resumido dos problemas com a atual esposa e com a anterior, que suicidara-se. Gilles (Merlet) flagra Sophie subindo com Jeanne para seu quarto. Comenta com a mãe, que fica indecisa se deve comentar ou não com o marido. A relação entre Sophie e George que já estava tensa, após essa recusar-se em atender um telefonema do mesmo, chega ao nível da insuportabilidade, quando a filha de George,  Melinda (Ledoyen) afirma que fora chantageada pela mesma, para que fosse preservada da família o fato de ser analfabeta. Caso contrário ela contaria a respeito da gravidez indesejada da moça. George despede-a, afirmando que ela poderá ainda passar uma semana na residência da família. Após um tempo vagando sem rumo com Jeanne, são dispensadas do serviço prestado à Igreja, já que acabaram rindo das doações de um casal de idosos. Induzida por Jeanne a voltar a residência dos Lelievre em sua companhia, Sophie observa uma série de arruaças que Jeanne faz pela casa, enquanto a família assiste a ópera Don Giovanni na televisão. Induzido pela afirmativa da esposa de que achara ter ouvido algo, George vai até a cozinha e é assassinado por ambas, que seguem matando o restante da família. Fugindo apressada, Jeanne morre  em um acidente de automóvel.
       Com o cinismo que lhe é habitual, Chabrol realizou uma pequena obra-prima, em que a perfeição rítmica da narrativa e seu tom distanciado, anti-sentimental, une-se à interpretação primorosa de Bonnaire. Invertendo os padrões comuns aos filmes de gênero, o cineasta acaba por nos tornar mais simpáticos das assassinas, que simplesmente são destituídas de qualquer culpa ou moralidade para com os valores tradicionais da família ou igreja. É com sutileza e raro humor que ele descreve as atitudes da protagonista, desmistificando o clichê do assassino da colaração sombria habitual do senso comum. Mesmo que o final possa soar gratuito ou excessivo (como também, aliás, outro filme seu do período, O Ciúme), seu caráter anárquico é herdeiro tanto de Buñuel quanto de si próprio ( faz, inclusive, com que um filme seu de 1973, seja assistido por Catherine e o filho). Desde o início de sua carreira o cineasta utiliza o assassinato como forma de expressar o desajuste dentro do mundo burguês – embora aqui, o crime seja praticado por duas proletárias, o que lhe dá também um sabor de vingança social. A insipidez com que os personagens burgueses são descritos contrapõe-se à verve destruidora e deliciosamente perversa e anti-social da dupla, que prefere guiar-se por uma lógica particular. Chabrol é bastante sutil na forma como retrata tanto um potencial relação incestuosa entre pai e filha, como o caráter homossexual da amizade das duas protagonistas, sacralizado sob o signo da identidade, já que elas compartilham um provável crime cometido no passado. Como exercício de desconstrução de expectativas habituais encontra-se a anos-luz de pretensiosas tentativas nessa direção como Violência Gratuita (1997), de Haneke, e mais próximo de Armadilha do Destino (1966), de Polanski. Sua descrição da impossibilidade de expressão completa da homossexualidade pelas duas protagonistas e o sentimento de absurdo que lhe é consequente pode levantar a hipótese de ter sido um dos motivos para a ação violenta, remetendo a uma situação semelhante vivida por outras duas mulheres em Matou a Família e Foi ao Cinema (1968), de Bressane. MK2 Productions/FR 3/ Prokino Filmproduktion/Olga Film/ZDF. 111 minutos.  


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