Filme do Dia: Memorias de un Mexicano (1950), Carmen Toscano
Memorias
de un Mexicano (México, 1950). Direção e Rot. Original: Carmen Toscano.
Fotografia: Salvador Toscano. Música: Jorge Pérez. Montagem: Teódulo Bustos
& Javier Sierra.
Infelizmente
as imagens de um dos maiores pioneiros da história do cinema mexicano (Gabriel
Veyre seria o outro, mas se encontrava a mando dos Lumière, e sua estética é
praticamente a mesma posta pelos cinegrafistas a serviço dos irmãos franceses,
sem falar que Veyre permaneceu apenas dois anos no México) hoje aparentemente
parecem resistir somente através desse documentário de compilação efetivado por
sua filha, e transformado, como afirma os letreiros iniciais, em patrimônio
nacional mexicano em 1967. Ter ganho esse título, algo excepcional em termos
talvez de uma obra cinematográfica, talvez diga respeito ao fato de trazer
imagens do México nas primeiras décadas do cinematógrafo. Mas talvez também por
conta de seu tom triunfantemente nacionalista, cujo prólogo e epilógo em cores,
atestam uma provável ajuda oficial das autoridades, se levarmos em conta que a
fotografia pancromática era algo praticamente desconhecido da filmografia
clássica do país, assim como de outras nações latino-americanas. Porém, mais
importante que isso, certamente, é que a visada trazida por Carmen é de alguém
sabedora da história e que, portanto, pode agenciar suas imagens para construir
uma narrativa que flui elaborando sem grande dificuldade o sentido de tudo que
observa (e não apenas observa, dá sentido através da narração over).
Embora essa narração seja da própria Carmen, ganha voz masculina, como era
então padrão no documentário clássico. E o motivo principal é que, como as
mulheres ainda não possuíam via de regra destaque na vida pública, esse
alter-ego do outro sexo pode se casar sem maiores problemas com as imagens
observadas, como é o caso do comentário que afirma que ele, aos 15 anos,
partira com o tio numa ofensiva para defender Madero contra Orozco, mas que
devido a idade, não fora permitido participar do combate. É através dela-dele que
se observa as festas folclóricas populares, mais reservadas ou de grande massa,
como o carnaval, seu pai ao lado do homem mais poderoso do país então, Don
Porfírio Diaz, uma parada comemorativa da penúltima posse de Diaz (os rituais
de poder eram lugar-comum na produção cinematográfica de então) e a sanguinolenta Revolução Mexicana após o
exílio de Diaz, que parte para a França. Dentre os destaques que o documentário
se detém estão o centenário da independência mexicana, comemorado, inclusive,
com desfile de marinheiros estrangeiros que incluíam argentinos, brasileiros e
alemães. Os efeitos de áudio que são acrescidos a algumas imagens, sobretudo os
vivas tradicionais mexicanos a algumas de suas liderenças políticas, são de um
gosto um tanto duvidoso e geram um humor involuntário. Um atentado político, em
novembro de 1910, mal findos os festejos do centenário, acenam para o que
estava por vir. Pancho Villa, Orozco, Zapata, cada um dominou uma região do
país. Porfírio Diaz toma posse uma última vez, agora sem aclamação popular,
apesar da pompa. Ciudad Juarez é a primeira cidade importante a cair sob o
poder dos rebeldes. As marcas de bala em algumas edificações são
impressionantes. Imagens do marcante motim popular (pela quantidade de pessoas)
que se dá frente ao prédio do governo, em 24 de maio de 1911, ato decisivo para
que Porfírio Diaz desistisse de continuar sob o comando oficial do governo. Sua
partida de trem, no mesmo dia, torna-se igualmente drama pessoal da família
Toscano, já que os filhos ficam, enquanto os pais vão com a comitiva do ditador
deposto. Na narração over, fala-se do “fim de uma era”, que no filme é
descrita apenas como a elegância dos figurinos e dos locais frequentados pela
elite belle epoqué mexicana. A recepção calorosa a Madero. A prova de
que boa parte, senão a maioria, das imagens não foi diretamente filmada por
Salvador Toscano se dá pela continuidade das imagens após sua saída do México.
Noutro momento, a dimensão do drama familiar assoma, quando o narrador fala que rompera com seu
tio, por permanecer fiel a Carranza. As multidões que recepcionam Madero a cada
estação ferroviária e as belas imagens do comboio filmadas de dentro. Em 27 de
junho de 1911 o comboio chega a uma lotada estação da Cidade do México. 16 de
novembro de 1911, após eleições, Madero toma posse como presidente da nova
república mexicana. A paz duraria pouco, no entanto. Dia 25 do mês Zapata já
lançaria ofensiva pública contra o governo de Madero. 3 de março de 1912.
Também Orozco se levanta contra o governo de Madero. Em novembro de 1912, a
vida na Cidade do México segue tranquila, mas as insurreições pelo país
continuam. A marinha permanece fiel a Madero. Em 9 de fevereiro de 1913 um
movimento rebelde e organizado se inicia, a partir da tomada das torres da
catedral. Liberto um dos opositores do regime de Madero de onde se encontrava
preso, o general Bernardo Reyes, e sob o comando desse uma ofensiva contra o
Palácio Nacional que findou com a morte de vários opositores, incluindo o
próprio Reyes – dos cadáveres do grupo se tem um plano aberto, de Reyes, um
plano aproximado de seu corpo sobre o solo, como se apenas repousasse. Madero é
deposto e o ministro que assume em seu lugar fica apenas 45 minutos no posto de
representante máximo do país, deixando sua vaga a Victoriano Huerta. Pouco
depois, Madero e seu vice Pino Suarez, a quem havia sido negado visitação dos
familiares, e que haviam sido eleitos pelo voto popular, foram mortos em uma
pretensa tentativa de fuga segundo a frágil versão oficial, e com apoio do
governo norte-americano. Os diplomatas cubanos, por sua vez, haviam oferecido
exílio para ambos. Populares se
aglomeraram diante da penitênciaria onde foram executados e colocam pequenas
pedras onde havia manchas de sangue em seu tributo. Seus caixõe saem do local.
A ação foi um revide da oligarquia porfirista contra os novos rumos políticos
do país. Venustiano Carranza, no entanto, não se satisfez com a posse de
Huerta, e inicial uma sublevação. 1914. Intervenção norte-americana em parte do
território mexicano de Vera Cruz. Tal intervenção foi efetuada sob mando do
presidente dos Estados Unidos, que aparentemente não soubera da ação de seu
embaixador no complô para assassinar Madero. Seu objetivo era desestabilizar o
governo ilegítimo de Huerta. Huerta é deposto. Assume Francisco Carvajal, que
apenas se encontra no comando de uma única cerimônia oficial. Carvajal renuncia
em agosto de 1914. Após um ano e meio de luta, o exército constitucionalista
adentra a Cidade do México. Pancho Villa e Emiliano Zapata não se conformaram
com Carranza no poder e propõem uma convenção em uma cidade considerada neutra,
Aguascalientes, e escolherem Eulálio
Gutierrez como presidente. As forças norte-americanas abandonam Vera Cruz em 23
de novembro de 1914. Poucos dias depois as tropas de Villa e Zapata chegam a
Cidade do México. Um banquete é oferecido as lideranças. Villa se emociona
diante da tumba de Madero. O ano de 1915 encontra o país dividido entre
villistas, zapatistas e carranzistas (fazendo eco, em fatura político-social
ampla, ao rompimento também familiar na família Toscano). As imagens são de
destruição. Os presidentes se sucedem quase anonimamente. A morte de Porfírio
Diaz em julho de 1915, em Paris. Em 1917 Carranza se auto-intitula líder máximo,
tomando posse como presidente em maio desse ano. Desfile (bastante módico após
tantos anos de conflitos) e praça lotada o saúdam. Zapata foi assassinado. Seu
corpo é apresentado. Sua tumba é humilde, ao contrário das pompas que se seguem
ao traslado do corpo do embaixador mexicano falecido no Uruguai. Aproxima-se o
período eleitoral. O general Obregón impugnou a candidatura de um rival seu. A
inquietação política retorna. Carranza foi assassinado em confronto quando
partia. As imagens do ferro retorcido sobre e nas proximidades dos trilhos dão
uma ideia do bárbaro ataque. O corpo de Carranza é velado e se prestam as
últimas homenagens. Uma comissão é aberta para apurar sua morte. Adolfo de la
Huerta é empossado presidente interino. Uma conferência de pacificação se
sucede (seguido pelo paralelo reatamento de relações do narrador com seu Tio
Luís). Villa apenas exige uma fazenda para trabalhar com seus homens. O general
Obregón é eleito presidente em 13 de dezembro de 1920. Quando a situação
política ganha relativa tranquilidade, busca-se apresentar apenas um México
festivo e de comemorações. Francisco “Pancho” Villa foi assassinado quando se
locomovia em seu carro com um assistente, por um deputado, que surge dando seu
depoimento à imprensa calmamente e sem qualquer aparato policial ou algemas.
Obregón se posiciona contra uma nova sublevação do exército em 1923. Em
setembro do ano seguinte se comemora o centenário da independência mexicana.
Impressionante pela quantidade de sucessivos confrontos e golpes políticos que
descreve com riqueza ilustrativa, pode até ao contrário se imaginar que a
narrativa erigida tem como mote o material de arquivo e não o oposto, embora a
flexão política seja evidente – não se fala abertamente do assassinato de
Madero, por exemplo; oculta-se o complô por trás da morte de Villa e seu
retorno às atividades de guerrilha noutro caso. Em 1924 as tropas de Obregón
ainda travam batalhas com insurgentes, ganhando. Seu triunfalista tom final,
sobrepõe imagens dos tempos da Revolução às vias modernas da Cidade do México
em que tenta casar modernidade e tradição pelo próprio apagamento dos conflitos
do presente, como se a aparente modernidade fosse uma prova disso, numa postura nada incomum ao cinema ficcional
do período (México de Mis Recuerdos)
que ora se rende à tradição como verdadeiro esteio da cultura mexicana (Primero Soy Mexicano), ora observa uma
modernidade que absorve com civilidade sua cultura tradicional no diferenciado
espaço urbano (Corazón de Niño). O
tom monumental do final se estende igualmente ao próprio filme. Archivo
Salvador Toscano. 104 minutos.
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