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quinta-feira, 1 de maio de 2014

'Getúlio', primeiro filme de ficção de João Jardim, quer buscar projeção internacional

Tony Ramos lembra-se perfeitamente. Era dia 24 de agosto de 1954 e sua avó, mãe de sua mãe, preparava a massa para os bolos de aniversário do neto, no dia seguinte. O pequeno Tony faria seis anos no dia seguinte. De repente, ela rebentou em choro. O que houve vovó? Morreu Getúlio Vargas. Quem? 'O presidente matou-se.' A frase ficou com ele, Tony Ramos cresceu para descobrir quem foi Getúlio e hoje, grande ator de teatro, cinema e TV, encarna o personagem no longa Getúlio.
João Jardim - ROBSON FERNANDES/ESTADÃO
ROBSON FERNANDES/ESTADÃO
João Jardim

Surgiu uma brincadeira, proposta pelo repórter - quem é o petista da produção? PoisGetúlio, de João Jardim, é um thriller poderoso. O presidente, isolado em seu bunker - o Palácio do Catete -, sente-se traído por tudo e todos. A imprensa o acossa, acusa de corrupção. Poderia ser o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por que não? Tony comemora 50 anos de carreira daqui a dois meses. Está feliz de comemorar a data com um papel que lhe parece divisor de águas em sua carreira, como foi o Teobaldo de Grande Sertão - Veredas, na TV. É um ano de eleições, e o diretor espera que o filme venha somar ao debate. "A história repete-se. Os protestos deste ano tiveram carro queimado na frente do Municipal, exatamente como em 1954, há 60 anos." João Jardim admite que pesquisou muito. Leu livros e jornais, viu filmes como Z, de Costa-Gavras, e Sol, de Alexander Sokurov. Os jornais foram fundamentais.É a primeira ficção de João Jardim, e o diretor de Janela da Alma Pro Dia Nascer Feliz, na coletiva de Getúlio - realizada há pouco num hotel da Avenida Brigadeiro Faria Lima -, disse que fez o filme com alma de documentarista, com o pé na realidade, tentando informar-se e informar (sem didatismo) sobre um período crucial da histórias do Brasil. No final, um letreiro atribui a Tancredo Neves a frase - o suicídio de 1954 retardou o golpe até 1964. E Tony Ramos acrescentou - "Minha filha, que é advogada, viu o filme numa sessão privada no Rio e, no final, segredou no meu ouvido. É um filme que propõe uma reflexão não só para aquela época. Vale para todas as épocas."
"O relato daqueles 19 dias na imprensa me permitiram recriar a história de forma jornalística, documentária. O que era fato hoje poderia ser desmentido amanhã, mas era tudo real. A marcha da história. O distanciamento nós temos hoje."
O filme estreia em 1.º de maio. Um lançamento grande, não gigantesco, com cerca de 200 cópias. Antes disso, Getúlio passa fora de concurso no Cine PE. A data não é fortuita. Em 1.º de maio, comemora-se o Dia do Trabalho. Getúlio Vargas foi o presidente que instituiu a legislação trabalhista no País. Dirigia-se ao povo, conclamando - 'Trabalhadores do Brasil'. Pouco antes do suicídio, seu ministro do Trabalho, João Goulart, propôs um aumento de 100% no salário mínimo. Os militares foram contra e, quando assumiram o poder, dez anos anos mais tarde, o que a ditadura fez foi achatar salários e concentrar a riqueza na classe mais privilegiada. Getúlio chega para propor a reflexão. Deve provocar polêmica. Mas é bem feito. "Queria que o filme tivesse um nível internacional e a equipe pegou junto, superando minha expectativa. Gostaria que o filme tivesse uma vida além fronteiras", diz o diretor.
O elenco inclui Drica Morais como Alzira, a filha de Vargas, e Alexandre Borges como Carlos Lacerda. Ela sempre foi a escolha do diretor para o papel. Tony Ramos também. João Jardim chegou a esperar um ano, à espera de que ele terminasse uma novela, para que fosse seu Getúlio. Alexandre Borges confessou – “Quando pensava em personagens da história do Brasil, sempre achei que Lacerda era alguém que poderia interpretar.” Amigo da mulher do ator, Júlia Lemmertz, João visitava o apartamento do casal quando Alexandre chegou. “Caramba, encontrei meu Lacerda”, ele pensou, na hora, ao ver o ator de terno. Formulou o convite no dia seguinte e Borges topou. Só mais duas semanas e você vai conferir o acerto dessas, e também de outras escolhas.

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