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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Filme do Dia: "Aleluia!" (1929), King Vidor

Aleluia! (Hallelujah, EUA, 1929). Direção: King Vidor. Rot. Original: Wanda Tuchok, Ransom Rideout, Richard Schayer & Marian Ainsle (entretítulos), a partir do argumento de Vidor. Fotografia: Gordon Avil. Montagem: Hugh Winn. Dir. de arte: Cedric Gibbons. Figurinos: Henrietta Fraser. Com: Daniel L. Haynes, Nina Mae McKinney, William Fountaine, Harry Gray, Fanny Belle DeKnight, Everett McGarrity, Victoria Spivey, Milton Dickerson.
Zeke Johnson (Haynes) acaba perdendo todo o dinheiro que a família arduamente conquistara na colheita de algodão após se envolver com uma mulher, Nina (McKinney) e seu parceiro Hot Shot (Fountaine). Pior de tudo, sentindo-se lesado Zeke atira a esmo no bar e mata acidentalmente o irmão mais novo Spunk (McGarrity), que viera atrás dele. Completamente desconsolado, ele ouve, com ajuda de seu velho pai (Gray) um clamor do céu e se transforma em pastor. No meio de sua peregrinação reencontra Nina, que se converte e acaba se transformando em sua esposa. Tendo abandonado o sacerdócio, Zeke ganha a vida como operário. Algum tempo depois, no entanto, Nina voltará a traí-lo com Hot Shot. Nina planeja fugir com o amante, porém Zeke flagra e parte em busca da esposa que cai e morre. Zeke, então, decide partir de volta à família e aos braços de sua eterna noiva Missy Rose (Spivey).
Evidentemente o filme se encontra longe da obra-prima de Vidor, A Turba, realizado imediatamente antes desse, porém tampouco se encontra aqui no terreno dos rotineiros melodramas comuns na sua filmografia (Wild Oranges, La Boheme, Pássaro doParaíso). Excessivamente impregnado pela moralidade cristã, o filme trabalha com o tema da conflituosa relação entre espirtualidade e carnalidade. É a figura da tentação feminina que reintroduzirá o protagonista em suas adversidades após o sofrimento inicial com a morte do irmão. E sua redenção se dará não somente após  a morte dessa como após o abandono da cidade para o retorno ao campo, de onde provavelmente nunca deveria ter saído – foi justamente na cidade que o protagonista, sem habilidade para lidar com os códigos da malandragem urbana maculou a sua “pureza”. Sem dúvida alguma, o filme é grandemente esquemático. Porém, apesar disso, não há como não conferir tampouco suas virtudes, no sincero amor que Zeke reserva a Nina, pretendendo levá-la de volta para casa mesmo depois da tentativa de fuga. Ou, no sentido mais amplo, na sua corajosa, ainda que paternalista,  representação do sofrimento dos negros do sul americano com elenco completamente negro, quando ainda se fazia uso de atores brancos para encarnar personagens negros (tais como no célebre O Cantor de Jazz, de dois anos antes). E tampouco deixar de se deliciar com os números musicais, destacando sua pouca afinidade com o que viria a ser institucionalizado como o gênero musical pelo cinema americano clássico – e aqui um paralelo pode ser traçado com Carmen Jones, adaptação de Bizet com elenco igualmente negro por Preminger três décadas após. Aqui, ao contrário de Preminger, no entanto, que lida com uma dimensão mais ortodoxa da adaptação de uma ópera, as canções vem expressar justamente o pesar e o sofrimento, mas também a alegria, de viver em meio a um ambiente realista que pouco ou nada diz respeito ao musical. Primeiro filme sonoro de Vidor, sendo também lançada à época uma versão silenciosa. Destaque para as belas canções Waiting at the End of the Road e Swane Shuffle, ambas de Irving Berlin, que ilustram o momento em que Zeke vai vender o algodão e a sua corte a Nina respectivamente, assim como a tradicional Swing Low, Sweet Chariot para a despedida a Spunk. Assim como para o prólogo elegíaco em que a esfuziante alegria e comunhão com que a família de Zeke e seus próximos são retratados antecipa um tratamento semelhante por Camus em  Orfeu do Carnaval (1959), mesmo que no último tal dimensão de união esteja longe de tão idealizada. Trabalhando com motivações igualmente bíblicas, em seu O Mensageiro do Diabo (1955), Laughton as impregnaria de uma dimensão metafórica e pseudo-onírica que aliviaram o peso de literalidade da fábula moral aqui presente. National Film Registry em 2008. MGM. 109 minutos. 

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