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domingo, 26 de janeiro de 2014

Filme do Dia: Imitação da Vida (1958), Douglas Sirk

Imitação da Vida (Imitation of Life, EUA, 1959) Direção: Douglas Sirk. Rot.Adaptado: Eleanore Griffin & Fannie Hurst baseado no romance de Allan Scott. Fotografia: Russell Metty. Música: Henry Mancini (não creditada)  & Frank Skinner. Montagem: Milton Carruth. Com: Lana Turner, John Gavin, Sandra Dee, Robert Alda, Susan Kohner, Dan O'Herlihy, Juanita Moore, Terry Burnham, Karen Dicker, Ann Robinson, Billy House, Mahalia Jackson.
               1949. Lora Meredith (Turner) se encontra na praia de Coney Island, quando perde de vista sua filha, Susie (Burnham). Com a ajuda de um fotográfo (Gavin) ela a encontra sob a guarda de uma senhora negra, Annie Johnson (Moore). Susie brinca com a filha dela, Sara Jane (Dicker). Após hesitar, já que se encontra desempregada e em dificuldade finançeira, Lora acaba convidando Annie e sua filha para passarem uma noite em seu apartamento. Quando lá se encontram, Lora recebe um convite para fazer um comercial e, animada, acaba concordando que Annie e sua filha morem com ela. Porém Lora se decepciona com o tratamento rude que tem na gravação do comercial. Recebe, certo dia, a visita do fotográfo que fotografara suas filhas se divertindo com um velho barrigudo (House) que dormia na praia, que lhe traz as fotos. As jovens ficam animadas, enquanto Steve se apresenta na saída. Ele marca um almoço com Lora, mas logo quando esta senta é avisada por uma amiga que fazem testes para uma nova produção teatral escrita por Tennessee Williams. Lora se despede de Steve, marcando um jantar em sua casa.  Lora afirma para a secretária que é uma atriz de Hollywood e consegue convencê-la a ter uma entrevista com o Allen Loomis (Alda). Este inicialmente se deixa enganar, mas quando já se encontram próximos de sair, liga para o nome que Lora citara e esta admite que mentiu. Quando vai saindo, ele convida-a a passar no seu escritório à noite, para irem a uma festa no meio artístico. Lora se decepciona mais uma vez quando percebe as reais intenções do astuto Loomis, e abandona seu escritório, afirmando que não pretende se submeter ao seu “método”. Quando chega em casa, encontra Steve ainda por lá, conversando com Annie. Tenta mentir mas acaba afirmando o seu fracasso e chorando. Sara Jane começa a revelar sua insatisfação por ser filha de uma negra e entrar em conflito com sua mãe e Susie, abandonando a escola quando sua mãe vai até a sala de aula falar com ela. Após realizar mais um mal sucedido teste teatral, Lora já vai se retirando, quando o diretor da peça, David Edwards (O’Herlihy), entusiasmado com as críticas que ela faz a montagem da cena, acaba chamando-a para fazer outro personagem. A peça torna-se um tremendo sucesso e Lora recebe elogios rasgados da imprensa. Lora começa a se envolver emocionalmente com David. Os anos passam e sucessos seguidos da dupla chegam aos palcos. 1958. Lora recusa pela primeira vez uma peça de David e, após reencontrar Steve, acaba confirmando que sente-se vazia apenas com o sucesso. Convida-o para sua casa, e lá ele se surpreende ao encontrar-se com Sara Jane (Kohner) e Susie (Dee) crescidas. Combinam um piquenique, porém Sara Jane inventa que se encontra doente para encontrar-se com o namorado branco. Lora recebe um convite para filmar na Itália. Enquanto recebe o diretor em sua casa é surpreendida por uma irônica perfomance de Sara Jane imitando uma escrava. Após a formatura de Susie, no entanto, Lora parte para a Itália, apesar de Steve demonstrar sua contrariedade. Sara Jane leva uma surra do namorado, ao saber que ela é filha de uma negra. Revoltada, desconta toda sua fúria sobre a mãe. Acaba saindo de casa, e afirma trabalhar em uma biblioteca pública em Nova York, mas a mãe a descobre dançando em um cabaré, sendo ela despedida. Steve passa a sair cada vez mais com Annie, ao ponto dessa se encontrar perdidamente apaixonada por ele. Lora nada percebe, até contar sobre a reação fria de Annie a notícia de seu casamento com Steve. Lora pede satisfações a Susie, que por sua vez lhe critica sua ausência, fazendo-a sentir-se culpada e até mesmo afirmando sua vontade de abandonar Steve, recebendo uma reação irônica da filha. Embora acabem por se conciliar, Susie resolve fazer sua universidade em Denver, a mais de 2000 km da mãe. Annie pede a Steve que contrate um detetive para encontrar sua filha. Mesmo adoentada, viaja para Los Angeles, e a encontra dançando em uma casa de espetáculos. Consegue ter uma dolorosa conversa com a filha na quitinete onde mora em que, mesmo emocionada, Sara Jane não assume de vez sua filiação - quando sua colega de trabalho (Robinson) chega e a encontra emocionada, ela confirma tratar-se de uma babá. Annie acaba morrendo. Sara Jane chega no último momento e é consolada no carro por Lora e Susie, sob o olhar terno de Steve.
Último filme de Sirk, que partindo do mesmo ponto e utilizando-se dos mesmos recursos dramáticos que o sistema hollywodiano oferecia aqueles que faziam a apologia do Sonho Americano, acaba aos poucos mostrando uma visão ambígua, e até mesmo corrosiva, dos valores que apresenta. Aos poucos a máscara de boa mãe de Lora é grandemente encoberta pela ambição de sua carreira, Sara Jane aguça os conflitos interiores que possui por não se sentir negra e Susie, uma espécie de contraparte “boa” da amiga Sara Jane, também se mostrará um ser humano para além do estereótipo, procurando inconscientemente competir com a mãe, por quem se sente abandonada, ao fantasiar uma relação com Steve. Mesmo que seja cedido um espaço para um happy end , o filme trabalha de forma competente e, em grande parte, de forma provavelmente inconsciente, certas ambiguidades, como a relação de negação da mãe por parte de Sara Jane:  é irônico que Sara Jane acabe finalmente ganhando, por via perversa, a mãe branca que sempre quisera - deita sua cabeça sobre o ombro de Lora após a morte de Annie - após a rápida catarse de culpa no momento em que o funeral se inicia. Ou ainda a relação de amizade, nunca perfeitamente delineada, entre Steve e Susie. Ou mesmo um dos raros momentos em que a relação de submissão e instrumentalização de Annie frente a Lora é ironizada, quando a última afirma não saber que Annie possuía muitos amigos e esta afirma que ela nunca lhe perguntara antes. Sirk foi uma das grandes influência no cinema de Fassbinder, principalmente na sua fase de melodramas que abordam os jogos de poder nas relações afetivas, como em As Lágrimas Amargas de Petra von Kant ou Martha, onde inclusive buscou uma fotografia que evocasse o techinicolor que trabalha com cores básicas, típico do cinema americano dos anos 50, como nesse filme, assim como multiplicou o efeito dramático das cenas com espelhos. Também semelhante ao universo de Fassbinder é a valorização do imaginário feminino, se apoiando sobretudo nas quatro personagens femininas, todos os personagens masculinos ficando em segundo plano. Por sua vez, Sirk sofreu grande influência de John M.Stahl, de quem refilmou três títulos, inclusive este, dirigido por Stahl em  1933. Sirk eleva a um novo patamar de maturidade as relações afetivas em seus filmes, pouco exploradas a esse nível de intensidade, mesmo entre os “contraventores” do sistema dos estúdios americanos nos anos 50 como Nicholas Ray, Richard Brooks e Otto Preminger. Participação especial da cantora Mahalia Jackson, como solista do coral na cerimônia em tributo de Annie. Universal. 125 minutos


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