Filme do Dia: O Silêncio (1962), Ingmar Bergman
O Silêncio (Tystnaden, Suécia, 1962). Direção e Rot. Original: Ingmar Bergman.
Fotografia: Sven Nykvist. Música: Ivan Renliden. Montagem: Ulla Ryghe.
Cenografia: P.A.Lundgren. com: Ingrid Thulin, Gunnel Lindblom, Jörgen
Lindström, Hakan Jahnberg, Birger Malmsten.
Retornando de férias, Anna (Lindblom),
sua irmã Ester (Thulin) e seu filho Johan (Lindstron) se hospedam em um hotel
semi-deserto, na cidade estrangeira de Timoka. Ester, que trabalha como
tradutora, padece de tuberculose e
mantem-se na cama a maior parte do tempo. Anna resolve abandonar a irmã em
busca de aventuras sexuais escapistas, em um cinema no centro da cidade, onde
presencia um casal copulando. Ester acaba ficando aos cuidados de um excêntrico
criado do hotel (Jahnberg). Johan em suas investigações pelo hotel descobre uma
trupe de artistas anões, os Eduardinis. Ao retornar, Anna é investigada por
Ester e conta tudo. Na mesma noite, resolve encontrar-se com seu amante
(Malmsten), que trabalha em um bar, no próprio hotel. O filho, que flagra os
dois entrando em um aposento vazio, comenta tudo com Ester, que vai até o local
e é agredida verbalmente pela irmã, afirmando que Ester a odeia tanto quanto a
si própria. Ao sair do quarto, Anna descobre Ester inconsciente ao lado da
porta e a leva para sua cama. Logo, no entanto, se desembaraça da irmã
moribunda e afirma que partirá com o filho no próximo trem. Ester deixa uma
carta para o sobrinho, onde traduz algumas palavras do país em que se
encontram.
O filme representa uma guinada formal
na carreira do cineasta, sendo extremamente moderno e menos realista que os
dois filmes anteriores, Através de um Espelho e Luz de Inverno, com os
quais compões a trilogia sobre a possibilidade da existência de Deus em um
mundo repleto de angústia e sofrimento, aproximando-se do estilo narrativo de
filmes posteriores como Persona e Gritos e Sussurros. Denso e
claustrofóbico, ganha como aliado na representação dos tormentos de seus
personagens os enquadramentos extremamente originais – que provavelmente
influenciariam Godard –, a magistral utilização da iluminação, a direção de
atores, a pouca utilização de diálogos e a atmosfera de absurdo
pseudo-surrealismo que acompanha certas seqüências, como a do garoto
investigando o hotel. Aproxima-se, ao expressar o sofrimento existencial de uma
protagonista feminina tanto em termos formais quanto de conteúdo, em grande
parte decorrentes da incomunicabilidade, de filmes de Antonioni, como Deserto Vermelho, mesmo que
praticamente não faça uso de exteriores. O impecavél estilo visual pode ser
percebido, entre outros momentos, na cena que o empregado do hotel entrega um
copo para Ester, de quem apenas acompanhamos seu reflexo em um espelho ou ainda
quando o garoto observa, do trem, uma fileira de tanques. Extremamente ousado
para a época, ao apresentar situações consideradas tabus para o cinema, como
nudez, evocações de sexo, masturbação, alusões a homossexualidade – na relação
entre as irmãs – e fetichismo – na relação do garoto com sua mãe. A seqüência nº 22 para violencelo, de Bach, é outro elemento que une
a trilogia, aqui utilizada como referencial para um raro momento de
tranqüilidade e constatação da beleza. Svenskfilmindustri. 95 minutos.

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