Filme do Dia: Scaramouche (1923), Rex Ingram

 


scaramouche (EUA, 1923). Direção Rex Ingram. Rot. Adaptado Rex Ingram & Willis Goldbeck, a partir do romance de Rafael Sabatini. Fotografia  John F. Seitz. Montagem Grant Whytock. Figurinos O’Kane Conwell, Van Horn & Eve Roth. Com Ramon Novarro, Alice Terry, Lewis Stone, Lloyd Ingraham, Julia Swayne Gordon, William Humphrey, Otto Matieson, George Siegmann, Edith Allen.

Na França que se aproxima do radicalismo revolucionário de 1789, o libertário André-Louis Moreau (Novarro), testemunha o assassinato de seu melhor amigo, Philippe de Vilmorin (Matieson) por um nobre, o Marques de La Tour d’Azir (Stone), que posteriormente descobrirá que é justamente o escolhido por seu padrinho, Quintin de Kercadiou (Ingraham), para casar com sua sobrinha, Aline (Terry), objeto de fervorosa paixão de André-Louis e vice-versa. Ele, no entanto, é perseguido pela repressão aos revolucionários e se junta a uma trupe teatral, onde noiva a filha do líder da trupe, Climène (Allen). De la Tour e Aline vão assistir um espetáculo da trupe. Enquanto Aline reencontra André-Louis nos bastidores, de la Tour possui um encontro fortuito com Climène que vem a ser flagrado por Aline e sua protetora, a Condessa de Plougastel (Gordon). Na Assembleia Nacional, aristocratas, incapazes de lidar com a temperatura política do momento, decidem resolver suas diferenças através de duelos. Danton (Siegmann) escolhe  André-Louis para enfrentar de la Tour. Embora tenha chance de mata-lo, não o faz. Pouco depois a Revolução Francesa explode e André-Louis terá que salvar Aline, mas não pretende fazer o mesmo com a Condessa, considerada traidora, até saber que se trata, na verdade, de sua mãe.

O romance mal havia sido editado, e eis que surgiu essa primeira – e talvez melhor – de sua meia-dúzia de adaptações para o cinema. Entre canapés, rapés e rapapés, a figura odiosa do Marquês de la Tour d’Azir demonstra a inescapável sucção para o redemoinho melodramático que Hollywood trabalha momentos históricos, e já com o seguro anteparo do romance. Em contraposição a ele o bom mocismo  e a virtude moral compungida de um André-Louis vivido por um belo, jovem e carismático Novarro, um dos competidores de uma aristocracia nas telas, a do estrelato masculino hollywoodiano, que seria ganho – e talvez sedimentada por sua precoce morte – por Valentino. Aqui Novarro é a figura não exatamente da plebe (e o futuro deixará isso ainda mais claro), mas de uma burguesia ilustrada, demarcando-se na aparência física e modos, uma proximidade maior com Tour d’Azir, que com seu aliado plebeu desgrenhado e semi-maltrapilho de Danton. As caricaturas vicejam nos extremos. E, no caso da aristocracia, menos em d’Azir que no roliço e disforme – complementado com uma massa posta ao seu nariz já avantajado – Phillipe de Vilmorin de Matieson. Caricatura, aliás, que guardadas as devidas proporções estéticas, não será nada diversa da que Eisenstein trabalhará pouco depois para antagonizar os burgueses fabris de A Greve, por exemplo. Sim, André-Louis até namorará literalmente com essa plebe antepassada do lumpem-proletariado, no momento em que ingressa na vida artística. Mas por mera conveniência e como um dado rocambolesco sempre associado a narrativas folhetinescas. E por aí vai também a relação de maternidade do herói, que faz com que mais adiante já se imagine qual será a paternidade numa situação que remete tanto a édipo quanto uma nada incomum proteção dos únicos aristocratas que o filme se aproximou mais detidamente, numa relação empática com o risco de serem massacrados pela turba descontrolada do Terror. A quantidade extensa de personagens e o fato de se tratar de uma adaptação para um gênero que erigia seus códigos então, pode soar como uma camisa de força para o inegável talento, pouco reconhecido ao longo da história, de Ingram. Mas, ainda assim, consegue demonstrar um inequívoco senso rítmico narrativo, bem dosado pelos respiros dos fades que prenunciam as cartelas, e talento visual para auxiliar seu conto de amor que tem como pano de fundo a Revolução Francesa – e um pano de fundo bem mais ativo que era habitual então, a exemplo de similares como o clássico Sétimo Céu. Ao ponto de inverter para os eventos históricos, mesmo que filtrados sob os vieses dos ressentimentos pessoais, o primeiro plano. Desnecessário alertar para o índice de coincidências alarmantes que é intrínseco ao gênero – desde sua origem teatral pós-revolucionária – e que livro e filme seguem à risca. Cuja face já se pode visualizar na bela cena inicial, em que o antagonismo gerado por ter testemunhado a morte do melhor amigo se espraiará  também para o campo amoroso e político. Não falta um comentário jocoso a respeito das fórmulas romanescas em questão, quando um revolucionário revira os olhos em condescendência enternecida pelo beijo romântico do casal. Metro Pictures Corp./Rex Ingram Prod. para Metro Pictures Corp. 124 minutos.

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