Filme do Dia: The Magic Glass (1914), Hay Plumb

 


The Magic Glass (Reino Unido, 1914). Direção Hay Plumb. Com Reginald Sheffield.

Cientista descobre lente que pode observar através de obstáculos como portas. Testando seu invento, ele observa seu filho (Sheffield), atacando uma lata de doces na dispensa. Enquanto desfruta de sua refeição com a esposa, faz com que  criança devolva o que fora furtado e discute com a esposa, retirando-se do aposento.  No aposento contíguo usa a lente para observar a esposa fazendo gestos provocativos a ele, sob as risadas do filho do casal, e imediatamente vai tomar satisfações dela e estapear o filho. Observa então a criada a se aproximar das bebidas da casa. O cientista a pega em flagrante e lhe dá uma lição de moral. Quando intervém para aplacar o barulho provocado por um gramofone, o garoto fica a par de qual o segredo do pai. E começa a utilizar do pó em uma lupa ainda maior.  Descobrindo onde se encontram as comidas que lhe interessam, mas logo flagrado pela mãe, que chama o pai e lhe dá umas palmadas. O filho, no entanto, articula uma vingança contra o pai. E a mãe observa o pai assediando uma segunda criada – a primeira já demitida – ou investindo nas garrafas das bebidas.

Menos importa o hiato a existir entre a empregada agir sobre a bebida, enquanto a cena da refeição continua a transcorrer, até porque ela poderia estar hesitando se aproximar ou não, atitude típica do desejo; ou ainda o cientista mirar para as portas justamente no momento em que alguém efetua um ato transgressor. E sim a antecipação de uma sociedade da vigilância constante, menos por lupas especiais, mas por parentes próximas a fazerem uso de lentes e mais próximas do próprio instrumento no qual tudo é contado: as câmeras. Mesmo não sendo exatamente a lente mas um composto químico transformado em um pó que propicie o milagre. Não é surpreendente a personagem dotada agora desta possibilidade de olhar panóptico seja um homem adulto, e a utilize contra mulheres e crianças, em uma evidente assimetria de poder de gênero, idade e classe social. Que a primeira incursão do garoto nas artimanhas do pai sejam em proveito próprio, mal deixam por esperar a contra-investida no qual a criança, aliada à mãe, desmascara os avanços sexuais do marido/pai sobre a criada.  O modo de filmar, bastante aproximado dos atores, é diverso do modelo instituído por Griffith e a utilização de uma lente de aumento já havia sido motivo visual utilizado nos idos do cinema, em Grandma’s Reading Glass, de G.A. Smith. E a interpretação do cientista é muito mais herdeira da pantomima de um Primeiro Cinema raiz que a da atriz a vivenciar a esposa. Ou do próprio filho, quase um milagre naturalista. Aliás, o garoto Sheffield seguiria carreira em Hollywood, trabalhando até o final de sua vida, em algumas produções marcantes como o grande sucesso de Bette Davis, Escravos do Desejo (1934) ou Suspeita (1941), de Hitchcock, como coadjuvante de destaque do primeiro. |Hepworth. 11 minutos e 30 segundos.

 

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